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Chico Science & Nação Zumbi

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O menino Francisco de Assis França cresceu na periferia de Olinda, berço de um dos carnavais mais tradicionais do Brasil. Seus ídolos eram James Brown, Grandmaster Flash, Kurtis Blow e outros papas do funk americano.

Em 1984, quando os passos do break, difundidos por Michael Jackson, tomavam o mundo de assalto, Francisco integrou a Legião Hip Hop, uma das principais gangues de dança de rua da Grande Recife.

Três anos depois, resolveu investir pra valer na carreira de músico. Formou sua primeira banda, a Orla Orbe, que serviu de aquecimento para um projeto mais ousado: o Loustal, cujo nome era inspirado no famoso quadrinista francês Jacques de Loustal. A idéia era misturar soul, funk e hip hop com rock dos anos 60. Àquela altura, graças às suas alquimias sonoras, o inventivo Francisco já havia sido propriamente rebatizado de Chico Science.

Em 1991, através do percussionista Gilmar Bolla 8, Chico conheceu o trabalho do bloco afro Lamento Negro, de Olinda, que tocava samba-reggae. A explosão contagiante do trabalho de percussão do bloco o impressionou a tal ponto que, a partir daquele momento, mudou todo seu referencial sonoro.

Se até então o que Chico Science se propunha era misturar todas as suas influências sonoras importadas com alguma pitada de brasilidade, as regras do jogo passariam a se inverter. O maracatu, o côco de roda, o caboclinho, a ciranda, o samba e a embolada, viriam a predominar, dividindo espaço com guitarras pesadas, numa mistura pra lá de psicodélica.

Não foi a toa que seu novo grupo acabou batizado de Nação Zumbi. Chico Science (voz), Lúcio Maia (guitarra), Alexandre Dengue (baixo), Toca Ogam (percussão e efeitos), *Canhoto (caixa), Gira (tambor), Jorge Du Peixe (tambor) e Gilmar Bolla 8 (tambor) [*quando a banda voltou da primeira turnê, Canhoto saiu e entrou Pupilo], mostraram pela primeira vez essa mistura de sons definida como mangue beat, no Espaço Oásis, em Olinda, em junho de 1991. O público foi ao delírio e os pernambucanos por um bom tempo tiveram a exclusividade de conferir este novo estilo sonoro que acabou se disseminando entre várias bandas do estado.

Só em 1993, após uma excursão por São Paulo e Belo Horizonte, os caranguejos nordestinos foram "descobertos" no resto do país. A imprensa especializada não poupou rasgados elogios ao som do grupo e o resto da história era previsível: Chico Science & Nação Zumbi assinaram com a Sony Music e lançaram pelo selo Chaos o disco Da Lama ao Caos. Produzido por Liminha e gravado no estúdio Nas Nuvens, no Rio, o disco atendeu a todas as expectativas daqueles que já haviam assistido o grupo ao vivo.

Da Lama ao Caos era o que faltava para o Brasil inteiro perceber que o mangue beat era algo mais sério do que um modismo passageiro. A faixa "A cidade" logo estourou nas rádios e "A Praieira" foi parar na trilha sonora da novela "Tropicaliente" e na boca do povo, graças ao refrão "Uma cerveja antes do almoço é muito bom/Pra ficar pensando melhor"

Embora não tenha virado jingle de comercial de cerveja, a identificação do espírito boêmio do brasileiro com a música foi total, especialmente no Rio de Janeiro, onde virou hit em festas e boates.

O talento do grupo, obviamente, passou a ser reconhecido também no exterior. Chico e seus caranguejos tiveram a honra de dividir o palco com Gilberto Gil durante um show no Central Park em Nova York e se apresentaram também em diversas capitais européias, além, é claro, de colherem elogios no Festival de Montreaux. Gil, admirador confesso do grupo, fez questão de participar do segundo disco, Afrociberdelia, lançado em 1996, adicionando vocais alucinados à faixa "Macô".

O disco conta ainda com as participações especiais de Marcelo D2 (Planet Hemp) e Fred Zero Quatro (Mundo Livre S.A.). Mas é em uma das composições que está guardado o grande segredo da química sonora de Science: "Maracatu atômico", de Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Esta ganhou nova versão e mais três remixes, ou melhor, quatro, se lembrarmos da roupagem jungle que recebeu para a coletânea "Red Hot + Rio". Depois de ouvi-las, não há mais dúvida de que o som do próximo milênio já deu as caras.

Chico Science, 30 anos, faleceu na noite do dia 2 de fevereiro de 1997, em um acidente de carro em Recife. A sua passagem pela Terra foi rápida, meteórica, mas não há dúvidas de que ele soube utilizar este curto espaço de tempo muito bem. E os carnavais seguintes a este ano, com certeza, nunca serão iguas àquele que passou. Desta vez, a euforia que antecede o carnaval do Recife deu lugar ao lamento dos maracatus.

Como uma revolução que transforma a cabeça das pessoas, Chico Science trouxe um novo sentido à música. Conseguiu, junto com a banda Nação Zumbi, investir na cultura pernambucana de tal forma que ela chegasse aos ouvidos de todos os brasileiros.

Criativo e inteligente, o inesquecível Chico sintetizou os nossos ritmos, tornando mais conhecida a cultura local. Batizou essa mistura de "mangue" e , a partir daí, a "Manguetown"(Recife) começou a investir mais em sua rica variedade de manifestações artísticas. Mesmo com sua morte, o "Movimento Mangue", como ficou conhecido, não parou de expandir-se, contando com adeptos no mundo inteiro, nos meios artístico, intelectual e no meio popular.

Este movimento, fundado por Chico Science, misturou ritmos de Pernambuco desde o Coco, Maracatu, Caboclinho ao Hip Hop e música pop, revolucionando toda uma geração. Mas quem pensa que o movimento Mangue Beat restringe-se à música está completamente enganado, este comporta toda uma filosofia, uma utopia de que um dia poderemos ter mais qualidade de vida, implicando, dessa forma, um engajamento e luta pela preservação ambiental, contra a miséria, a favor da vida e da esperança e que muitos jovens já adotaram para si.

Até hoje a Nação Zumbi dá continuidade ao trabalho que Chico deixou e outras grandes bandas do movimento mangue lutam para que o Recife não afunde novamente na lama.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

por Luiz Guilherme